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“Semeando Bem: Fortalecendo Raízes Subterrâneas e Comunitárias por meio do Plantio e Manutenção das Árvores e do Ser”

Este projeto piloto intitulado “Semeando Bem: Fortalecendo Raízes Subterrâneas e Comunitárias por meio do Plantio e Manutenção das Árvores e do Ser”, em parceria com o Instituto Mudar, envolve os cumpridores de Serviços Sociais da “Secretaria da Administração Penitenciaria do Estado de São Paulo e Coordenadoria de Reintegração Social e Cidadania e Departamento de Penas e Medidas Alternativas”-  para co criar possibilidades de superação física e emocional dos participantes do programa, compartilhando suas angústias e  realizações, transformando-as em ações e alternativas de superação do sofrimento, como também de envolvimento comunitário, por meio do plantio e manutenção das árvores, na cidade de São José do Rio Preto – SP.

Este é um projeto, na área da saúde mental e social, que visa atuar para o desenvolvimento ambiental, social e mental dos cumpridores de penas alternativas, fazendo uso das respectivas metodologias:  Terapia Comunitária, Análise Bioenergética e Práticas Narrativas Coletivas.

O contexto de prestação de serviços sociais dos cumpridores de penas alternativas costuma ser permeado por condições desfavoráveis à promoção de saúde física e mental devido ao despreparo socio educacional de acolhimento da sociedade, que, na maioria das vezes, reforça a vulnerabilidade, a exclusão, a desigualdade social daquele que foi julgado como infrator e por conseguinte, favorece a desconexão do indivíduo com seu meio ambiente. Este contexto interfere na autoestima dos prestadores de serviço social e favorece comportamentos de defesa e desmotivação. Ressaltamos com o projeto a importância deste período tornar-se uma oportunidade para reflexão, reconstrução de significados na vida de cada participante e ações produtivas que gerem possibilidades de reposicionamento individual e social culminando no fortalecimento das raízes subterrâneas das árvores plantadas e em manutenção, bem como fortalecer as  raízes comunitárias,  fazendo jus ao título deste projeto.

Segundo Barreto, “todo sofrimento é uma construção humana”. Nesse propósito a Terapia Comunitária é um instrumento de transformação pessoal, familiar e comunitário, o qual compreende que cada um de nós detém a chave do seu sucesso e do seu fracasso, sendo esse um importante passo para nos livrarmos de um sentimento de impotência diante de acontecimentos produtores de sofrimento.   

Ainda de acordo com Barreto, só podemos agir desta maneira quando compreendemos o que está acontecendo, quando sentimo-nos sujeito e fazemos parte do todo globalizado. Quando nutrimos um sentimento de que nada mais fazemos do que sofrer suas consequências, nos tornamos fracos, oprimidos, descrentes e mais distantes da possível solução, contribuindo para um sofrimento intenso e uma percepção cada vez mais distorcida da realidade.  Trata-se da reação do sujeito desproporcional ao acontecimento relacionado à situação-problema, visto que a reação não é quanto ao fato e sim ao sentimento relacionado ao fato passado – trauma.

Em consequência de tamanho sofrimento ou trauma, surge a inquietação e ansiedade no enfrentamento dos problemas existenciais, além de ter um efeito cumulativo, aumentando a degradação da saúde. Dessa maneira, o sofrimento transforma-se no maior existente, na síndrome da pobreza psíquica.

A mudança de paradigma do pensamento sistêmico inicia mudanças no comportamento do observador, que passa da posição de ser passivo para agente – aquele que age a seu favor – e, por conseguinte, gera mudanças de posicionamento frente à vida, pois é encorajado a assumir a responsabilidade pela busca de uma forma mais satisfatória de vida. A importância do ser humano assumir a posição de agente do seu processo evolutivo também apresenta um marco conceitual significativo na prática da psicologia corporal, mais especificamente na Análise Bioenergética, referente ao posicionamento físico e emocional do indivíduo no mundo, em contato com sua realidade máxima: a sustentação de suas bases (pernas e pés) em relação ao chão em que pisa. A tese fundamental da Análise Bioenergética, linha desenvolvida pelo médico e psicoterapeuta americano Alexander Lowen, é a de identidade funcional: corpo e mente são funcionalmente idênticos, o que acontece na mente acontece no corpo e vice-versa.

Ao convidar o cliente a se levantar e se posicionar com os pés no chão, em sua postura adulta, em prontidão para o mundo, fazendo contato visual com o outro e com as mãos livres para se expressar e criar, Lowen faz uma alusão ao processo da evolução humana, e desenvolve o conceito de grounding, termo em inglês, que significa enraizamento. Lowen faz uma crítica ao desenraizamento do indivíduo, alertando também para os perigos de uma sociedade desconectada dos valores corporais – saúde psíquica – como antídoto contra a sociedade consumista e baseada no poder. É a consciência e a posse de si mesmo que permite a auto expressão no mundo em que está situado.

Segundo Lowen, “O objetivo de meu trabalho terapêutico é ajudar as pessoas a recuperar seu sentimento de ligação com a vida e com os outros. Tornar-se enraizado é a única maneira de recuperar essa ligação”. Deste modo, esse trabalho de vivências em grupo com enfoque na comunicação interpessoal busca favorecer a melhoria das relações interpessoais, o alívio das tensões e do estresse, bem como a qualidade de vida dos participantes. Entender o que há por trás das atitudes e da expressão de sentimentos, favorece o autoconhecimento e o empoderamento do ser, pois resgata, em sua história, o momento em que a comunicação consigo mesmo falhou, fomentando a busca do equilíbrio no contexto em que vive.

A Terapia Comunitária apresenta três características básicas: a realização de um trabalho de saúde mental, preventiva e curativa, procurando engajar todos os elementos culturais e sociais ativos da comunidade; a ênfase no trabalho em grupo, promovendo o fortalecimento dos vínculos entre os participantes, para que juntos busquem soluções para problemas cotidianos e possam funcionar como escudo protetor para os mais frágeis; a criação gradual da consciência social, para que os indivíduos tomem consciência da origem e das implicações sociais da miséria e do sofrimento humano e, sobretudo, para que descubram as suas potencialidades terapêuticas transformadoras.

A Terapia Comunitária busca reforçar os vínculos entre as pessoas da comunidade, mobilizar e valorizar as competências vindas da experiência, do saber local e da cultura, colocando o terapeuta comunitário a serviço da consciência social transformadora que estimula nas pessoas o resgate da condição de autoria de sua própria história e sujeito de suas escolhas.

A utilização e o aprimoramento desta metodologia ao longo dos anos têm demonstrado, por meio de pesquisas, resultados muito relevantes na atuação junto às comunidades, em especial com maiores vulnerabilidades sociais, visto que já ajudou mais de dois milhões de pessoas desde a sua fundação. Tais resultados possibilitaram que a TCIS adquirisse status de Política Pública no âmbito Municipal, Estadual e Federal (CAMAROTTI et al, 2005).

Fazemos uso da metodologia da Árvore da Vida, desenvolvida por David Denborough e Ncazelo Ncube, baseado no Projeto Comunitário de Autoajuda do MtElgon, na área rural de Uganda, que utilizou as práticas narrativas para desencadear e sustentar iniciativas locais de desenvolvimento com indivíduos, famílias e comunidades

No projeto “Semeando Bem…” é desenvolvida linhas no tempo e mapas de histórias e narrativas coletivas, com o propósito de tornar a diversidade algo valioso para todos e assim, criar unidade. Esta metodologia  é útil para formuladores de políticas e provedores de recursos interessados em apoiar programas desenvolvidos localmente, culturalmente apropriados, que sejam altamente eficazes e sustentáveis.

O presente trabalho de Terapia Comunitária Integrativa Sistêmica, da Psicologia Corporal e Práticas Narrativas Coletivas visa contribuir para o desenvolvimento mais humanizado do atual panorama no sistema prisional, levando os usuários deste sistema  a uma melhor interação entre seus companheiros, auxiliando-os na formação de grupos onde possam trocar relações e experiências, buscando quebrar paradigmas de que o indivíduo que recebeu uma sanção penal do estado após responder ao processo penal deve ser tratado como um “bandido” sem direitos e deveres a cumprirem com a sociedade, tirar o foco da exclusão social desses indivíduos e auxiliá-los para uma melhor interação social.      

Desta forma, este trabalho vem de encontro às mudanças pragmáticas em relação ao tratamento dos cumpridores de penas alternativas por apresentar propostas de atendimento mais humanizado durante o cumprimento da penalidade social, visando contribuir com práticas que possam auxiliar na efetivação dessas premissas atuais.

É importante salientar que os encontros terapêuticos presenciais são realizados em espaço ao ar livre, semelhante aos espaços de manutenção das árvores realizados pelos cumpridores deste serviço social,  a fim de desfrutar do contato com a natureza, de forma terapêutica, isso é, ressoando na ecologia do ser para potencializar o autoconhecimento e a co responsabilidade de suas ações no mundo. Corroborando com a crítica que Lowen nos apresenta sobre o desenraizamento do indivíduo, que provoca a desintegração do ser e a desconexão com o meio em que vive. Busca-se, então, reafirmar a necessidade de ampliar a consciência da inter-relação do indivíduo com suas raízes, do plano individual, ao coletivo, do subterrâneo ao comunitário.

É igualmente importante salientar que, atendendo às demandas específicas por conta da pandemia causada pelo Covid 19,  daremos prosseguimento as práticas narrativas estendendo-as para as famílias dos cumpridores de serviços sociais, aproveitando este momento de intenso convívio familiar para reflexão individual, para o envolvimento e inclusão familiar, fazendo uso das ferramentas digitais durante a quarentena, para uma pesquisa por meio de  “Formulários do Google Forms”. Outra etapa, a ser iniciada na quarentena será de incluirmos um “plantio familiar domiciliar” de girassóis, como atividade do programa “Semeando Bem…” durante a quarentena. A metáfora do girassol, como uma planta resistente à aridez do clima, que se movimenta em busca de luz, é repleta de energia e fonte de vitamina/ alimento para o homem, será tema para reflexão pós o plantio com a família, em paralelo com o contexto e desafios de enfrentamento da  pandemia.

Teoricamente a quarentena implica em estarem juntos da família e em casa por mais tempo, o que em geral, solicita novos arranjos entre os familiares, mudanças de hábitos, desenvolvimento de novas habilidades e reflexão. As Práticas Narrativas tem contribuições importantes para o contexto familiar Covid19, que, por meio do projeto parceiro “Reciclando Mentes”, coordenado pela Psicologa Lucia Abdalla, RJ, desenvolveu o Formulário, e trabalha com comunidades vulneráveis através dessa metodologia.

O intuito do formulário é de estimular o diálogo entre membros da família acerca de como cada uma lida com o isolamento social e trazer isso para uma dimensão coletiva, bem como coletar informações para valorizar os recursos que as pessoas estão utilizando no cotidiano que fortalece o enfrentamento neste período.

Teoricamente a quarentena implica em estarem juntos da família e em casa por mais tempo, o que em geral, solicita novos arranjos entre os familiares, mudanças de hábitos, desenvolvimento de novas habilidades e reflexão. As Práticas Narrativas tem contribuições importantes para o contexto familiar Covid19, que, por meio do projeto parceiro “Reciclando Mentes”, coordenado pela Psicologa Lucia Abdalla, RJ,desenvolveu o Formulário, e trabalha com comunidades vulneráveis através dessa metodologia.

O intuito do formulário é de estimular o diálogo entre membros da família acerca de como cada uma lida com o isolamento social e trazer isso para uma dimensão coletiva, bem como coletar informações para valorizar os recursos que as pessoas estão utilizando no cotidiano que fortalece o enfrentamento neste período.

Ao retomar os encontros presenciais (por enquanto sem previsão), os prestadores de serviços sociais, integrantes do projeto “Semeando Bem…” serão convidados a compartilharem suas experiências durante a quarentena. As informações colhidas através da pesquisa contribuirão para o desenvolvimento de um documento coletivo inédito referente ao Covid19, no qual incluirá as respostas dos participantes do “Semeando Bem…” em parceria com o projeto “Reciclando Mentes”.

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